Monteiro entra para o time Majestic

Foto: Carla Barraqui

Foram quatro fins de semana dormindo na fila para conseguir uma vaga no curso de cabeleireiro. “Naquela época, o Senac não era acessível como hoje. As inscrições eram na segunda-feira, às 8h, e para ser atendido, precisava chegar no sábado à noite, dormir, passar o domingo todo na fila, dormir novamente para só então ter a chance de se inscrever. Na quarta tentativa, eu consegui”, lembra Honório Monteiro, ou simplesmente Monteiro, de 53 anos. Para ele, que cresceu em um quilombo na região de Araruama com nove irmãos e tinha como futuro somente a lavoura para cuidar, concluir o curso de cabeleireiro foi uma das primeiras de suas muitas vitórias.

Monteiro é do tempo que o profissional de salão fazia tudo: corte, cor, penteado… Por isso, dispensa rótulos muito específicos, ele é “simplesmente”cabeleireiro”.

O seu diferencial é ouvir a cliente e adaptar as suas técnicas aos desejos dela. “Respeito muito a confiança que ela (cliente) deposita. Por isso sou o mais honesto possível naquilo que me proponho a fazer”, pontua.   

Se inspira nas criações de vanguarda e atemporais de Vidal Sassoon. “Nos anos 50 ele já fazia o que até hoje consideramos moderno”, opina. Em cima dessas referências, Monteiro ouve a cliente, faz uma leitura do que é possível fazer de acordo com o que ela deseja, leva em conta as técnicas de visagismo e só então parte para a criação. “Gosto do ar de modernidade”, resume.

Pai do Thiago e do Cauã, o cabeleireiro gosta de tocar berimbau e, inclusive, fabrica os próprios instrumentos! Vive rodeado de livros, em especial os sobre cultura africana, de preferência aqueles que não se encontra em qualquer prateleira.

 

História

Com 18 anos, Monteiro veio para o Rio de Janeiro, onde o pai trabalhava como estofador. Começou como ajudante, moravam na estofaria, mas, apesar de não saber exatamente o que queria, sabia o que não queria: seguir entre colas, tecidos e estofados. Decidiu ser ambulante, vendia de tudo: de sapatos a almofadas. Depois de 2 anos resolveu dar uma segunda chance para o ofício de estofador e teve certeza de que não queria. Foi aí que entrou como office boy em uma loja de tecidos. À tarde ele fazia entregas, aprendeu sobre musseline, crepe e seda e gostava muito do contato com os clientes, mas queria encontrar uma profissão para chamar de sua. Foi cortando os cabelos e observando toda a movimentação da barbearia que ele pensou: “eu posso aprender  isso”. Foi o insight que o levou para a concorrida fila do Senac.

Como o curso era todos os dias pela manhã, para se manter, à tarde ele voltou a trabalhar como ambulante. Conseguiu o certificado e não parou mais. Acompanhou de perto os anos de ouro dos salões de beleza no Rio. Fez um teste no Souza Cabeleireiros, referência na época e em outros. “Foi o próprio Souza. Ele me reprovou, disse para eu continuar treinando, me deu um pente de presente e disse: sempre que olhar para esse pente, acredite que você pode passar por isso. Tenho esse pente até hoje!”, conta.

Foi trabalhar em um salão no shopping RioSul como assistente  até que conseguiu “sua cadeira”. “Foi aí que eu descobri que eu podia me expressar através do meu trabalho”, pontua. A conquista não fez com que ele se acomodasse. Pelo contrário! Seguiu em busca de conhecimento. Fazia bate-volta de ônibus para São Paulo para fazer cursos como o de corte, de  Fernando Alves. Vidal Sassoon sempre foi sua referência.

A naturalidade dos cabelos e a maneira de como o trabalho é apresentado foi o que chamou sua atenção no Majestic há alguns anos. “O Majestic acabou com aquela ditadura da beleza perfeita e era isso que eu queria fazer”, diz. Agora, em uma nova fase do Majestic, Monteiro também inicia uma nova fase.


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